Estratégias para gostar de Ana Guadalupe


Eu conheci os poemas de Ana Guadalupe há quase 10 anos e, à primeira vista, eles não me pegaram.
Ana tem um humor próprio e uma autoironia fina que talvez exijam uma não ingenuidade que só vem mesmo com a passagem do tempo. Por outro lado, e talvez de um jeito meio contraditório, Ana também transita por um certo tom confessional que não tem medo de ser ingênuo. É preciso estar atenta ao que não é óbvio para ler Ana. Seus objetos escolhidos e suas imagens poéticas não se encaixam fácil. Cada verso é único e o que vem depois é sempre uma surpresa - às vezes ruptura, às vezes conclusão.

Ana escreve como quem pede desculpas por ser poeta - mas não deveria. Ou deveria, visto que é exatamente esse efeito quase autodepreciativo que faz o leitor rir da desgraça e da beleza do banal.
É quase como se ela estendesse a mão ou mesmo se ajoelhasse, saindo da pompa de poeta,  encarando o leitor direto nos olhos: "venha comigo, é preciso falar de janelas basculantes, caixas de pornôs e primeiros socorros".
Na poética de Ana, o que não é matéria clássica da poesia escapa e vira verso.
Não por acaso, seu primeiro livro tem nome de objeto ordinário: Relógio de pulso. O segundo, Não conheço ninguém que não seja artista, joga com a ideia do próprio poeta/artista como algo prosaico, simples, e convoca o leitor a participar do jogo:

"(sinta-se à vontade para customizar essa página
caso haja urgência de produzir sua arte
antes do término da leitura)"

 Lendo os poemas do segundo volume, logo se conclui que isso na verdade não passa de um grande engano. Ana só finge que é simples. Ou melhor: Ana se apropria de temas cotidianos (a internet, o reality show, o hospital), mas trabalha na construção de uma forma não óbvia, sagaz, ácida e sutilmente debochada.



Acho Ana uma poeta corajosa e econômica. Cata palavras e ganha: escolhe bem.

Ana conta que fazia livros na escola. Era um hobby, visto que ela não tinha aptidão e nem se destacava em outras coisas. "Não tinha proficiência em quase nada", ela diz. Ana se esforça para ser detestável, mas falha: é adorável. Seus poemas seguem na mesma linha.

Apontada por Heloísa Buarque de Hollanda em Otra línea de fuego - Quince poetas brasileñas         ultracontemporáneas, escolhida para compor a Antologia Incompleta da poesia contemporânea brasileira, da Adriana Calcanhotto, e publicada em muitas revistas e sites por aí, são indícios suficientes para afirmar que a obra de Ana, apesar de ainda enxuta, já está legitimada e tende a continuar nesse caminho.

Seu tom autodepreciativo talvez seja, no final das contas, uma forma de se proteger do peso da poeta que, lá no começo do primário, ela já sabia que seria. Apesar de flertar com esse não lugar, Ana segue, como ela mesma já disse, "na imprevisível aventura da poesia".

Do livro Relógio de pulso

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