Pó de parede

Angústia é fala entupida
Ana me disse
enquanto eu abria o livro rosa
como quem brinca de minutos de sabedoria

Hoje choveu a noite toda
e o sol está em aquário
o que eu não sei exatamente o que significa
porque me escondo atrás de mapas e graus e casas

Hoje choveu a noite toda
repito como quem faz um poema
e ontem eu arranquei todo o papel de parede
do meu quarto de menina

E respirei pó de parede a noite inteira
como que pra recuperar
alguma palavra perdida
entre a massa
e as marcas dos pregos que já foram

Acordei doente
a cabeça pesada
a garganta seca
como quem bem inspirou
e expirou
e inspirou
e expirou
durante pouco menos de oito horas
o pó dos dias

Aquela parede já viu tanta coisa
e teve seu fim na sacola plástica
do super mercado

A vida é uma bagunça
me disseram

Uma bagunça de pus nas amídalas
de nó nos encontros
de mãos bonitas que se apertam
e se soltam
e se perdem

E de outras mãos que chegam
e se prendem
e se arranham
e se perdem de novo

Todas, tudo
o tempo todo
indo embora

A vida é uma bagunça
eu anotei no canto do caderno
mas é disso que somos feitos.


Só pela história

Eu era capaz de muitas coisas
de atravessar a cidade
de apostar corrida sozinha
de mergulhar em piscinas sujas
de ir pelo caminho mais longo
de varar a noite em espuma
só pra poder sentir

Eu era capaz de muitas coisas
pelo buraco no estômago
pelo coração descontrolado
pela história

Forço
cutuco
simulo
cavo

Trombo com um sorriso
e ligo o rádio
coloco um samba triste
declamo poesias eróticas
no meio da sala

Tiro fotos sem roupa
pensando em você
enquanto desenho na minha pele
um rosto que não existe
porque eu o inventei

A boca vermelha
a saia rodada
um quente no meio das pernas
e de repente vem
de novo

A sensação
experimentada pela primeira vez aos cinco anos de idade
quando me apaixonei pelo menino da casa da árvore
e não deu certo
[ele foi pra Tailândia
e tudo o que tenho é uma foto dele em um elefante]

Então escrevo
pra que todos os países distantes que me espreitam façam sentido
Enquanto repito que é mesmo melhor amar, sofrer, chorar

E obedeço
honro o sobrenome
desgrudo a unha da carne de propósito
me derramo em lençóis de cama
faço carinho em estranhos

E amo em mim outros corpos
só pra escrever cartas de amor pra ninguém.
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