Estrangeira

Numa cidade triste, à beira de um rio imenso
às vezes eu penso
que queria me reinventar

Ser babá em Paris
Garçonete em uma cidade desconhecida do Leste Europeu

Uma prostituta chamada Lola
em uma vila suja
do sul de algum país

Eu queria até
Uma pequena casa pra morar

Comigo-ninguém-pode
sobre a mesa lateral

Alguns maços de cigarros pra passar o tempo
Uma vida que seja outra
que não esta
uma mulher diferente
que não seja eu

Eu queria uma dor que virasse algo
um impulso que fosse forte
um desejo suficiente
de ser alguém

Ter meu nome estampado
numa página amarela de um livro
mesmo que descartado no sebo da esquina

Eu queria filhos
pra poder me amar pra além de mim
pra poder sair
e saber o que levar

eu queria não ter medo
da fragilidade do corpo
do girar do tempo

eu queria pegar um trem
naquela estação bonita
com cheiro de urina
e ir pra longe

mesmo sabendo que não há
terra firme
que se alcance
em lugar algum.
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