Livros e cidades: Para ler no Rio de Janeiro

Uma das coisas que eu mais gosto quando viajo é encontrar um livro que dê match com onde eu vou. Claro que isso é super subjetivo e varia muito com o que você quer/pensa quando vai visitar um lugar. Mas é um processo bonito: mexer nas estantes, fuçar nos livros ainda não lidos, rever os já lidos para ver se vale à pena uma releitura, pesquisar novos títulos... Às vezes eu gosto de visitar livrarias locais e escolher algo aleatoriamente lá, às vezes me preparo mil e levo de casa. É uma lógica própria, que muda conforme a cidade e o passar do tempo.

Vou visitar o Rio de Janeiro pela primeira vez daqui a pouco e tô exatamente no momento de pensar: que livro vou ler lá?
O critério pode variar, mas acabo priorizando: autores do lugar; histórias que se passam no lugar; livros que tenham a ver com o clima do lugar; livros que tenham a ver com meu estado no momento.

Cheguei a uma listinha, ainda não definitiva, mas que pode servir de inspiração para você criar as suas (ou seguir a minha, caso também vá pro Rio). Olha aí:

Ai de ti, Copacabana - Rubem Braga
Rubem Braga é o cronista mór do universo. Ele inaugurou o estilo daquilo que entendemos como crônica hoje e, claro, usou muito o Rio de Janeiro como pano de fundo de vários de seus textos.


Fim - Fernanda Torres
Faz um tempinho que quero ler o romance Fim, com o qual a maravilhosa Fernanda Torres estreou na literatura. O livro focaliza a história de cinco amigos cariocas e a Fernanda também é carioca. Duplo match!

"Há graça, sexo, sol e praia nas páginas de Fim. Mas elas também são cheias de resignação e cobertas por uma tinta de melancolia. Humor sem superficialidade, lirismo sem cafonice, complexidade sem afetação, densidade sem chatice: de que mais precisa um romance para dizer a que veio?" (Companhia das Letras)

Antologia poética - Vinicius de Moraes
Uma palavra pra Vinicius: amor. Gosto de Vinicius desde que me conheço por gente, quando nem sabia ler direito e fuçava as edições da minha mãe, ainda do Círculo do Livro. Acho que é uma ótima deixa pra reler a Antologia poética e outras obras, como o livro de crônicas Para uma menina com uma flor.  Aproveita a onda e já mergulha na discografia do poetinha, que tem muita coisa para além da bossa nova.

A alma encantadora das ruas - João do Rio
Não li quase nada do João do Rio, o que é com certeza uma falha gravíssima que quero resolver logo! Sua obra está em domínio público desde 2010, ou seja, não tem desculpa pra não ler! Esse livro é uma reunião de textos publicados na imprensa carioca entre 1904 e 1907. Como já deixa claro no título, o livro funciona como um retrato urbano da realidade carioca da época - tudo isso por meio das crônicas de alguém que enxergou o Rio de Janeiro quase como uma extensão de si mesmo.

Copacabana dreams - Natércia Pontes
Esse livro foi publicado em 2013 e foi finalista do Prêmio Jabuti. Sempre flerto com ele, mas acabei nunca comprando. Segundo o site da Cosac: "O livro é o registro de uma Copacabana mística, um cenário em que desfilam a verdade e a mentira, o cinismo e a lágrima, a solidão e a sacanagem. São contos curtos, com personagens pinçados das ruas vivas do bairro carioca, que se cruzam num trânsito de circunstâncias íntimas, bizarras, líricas, tragicômicas. A jovem autora Natércia Pontes despe esse registro de toda facilidade e sentimentalismo para chegar a uma narrativa pop e poética, um mergulho de cabeça no que é mais perdidamente humano." Parece uma ótima opção também, né?

Ana Cristina Cesar - Poética
Ana Cristina Cesar é uma de minhas escritoras preferidas. Antes era bem difícil encontrar livros seus, mas desde 2013 tem Poética, o que deixou tudo mais fácil. Ela é carioca, mas mesmo que não fosse: sempre é hora de ler/reler Ana Cristina Cesar.

Adriana Falcão - Queria ver você feliz
Ah, esse livro <3 Ganhei de presente no começo deste ano, de uma amiga mais que querida. A história é super tensa e envolve amores difíceis e suicídio, tudo isso com um baita pé na realidade - Adriana Falcão se apropriou belamente da história dos pais dela, Caio e Maria Augusta, para escrever o livro. É foda, mas é leve. Bonito e triste, tudo ao mesmo tempo. Além disso, o amor é quem conta a história - um artifício narrativo no mínimo curioso. E ah, claro, O Rio de Janeiro é a cidade por trás da história. 

Natalie Portman como Jacqueline Kennedy + 3 ótimos filmes com a atriz

Eu sou apaixonada pela Natalie Portman. Um amor que nasceu lá em 2005, no alto dos meus 15 anos, quando assisti Closer pela primeira vez. 

O próximo filme dela será "Jackie", uma cinebiografia da Jacqueline Kennedy, com estreia prevista para 2017. O filme vai se focar nos primeiros dias depois do assassinado do presidente John Kennedy. Ou seja: vai ter drama, vai ter dor e ficaremos tacadas no chão do cinema, com toda a certeza.


Agora aproveita a onda e dá uma olhada em outros três filmes que eu amo, em que a Natalie  mostrou que é uma atriz maravilhosa e rainha do universo. 


Closer (2004)

Já assisti umas 50 vezes e não passa o amor. Acho foda, sofro, fico na bad com o quanto relacionamentos são sempre complicados, mas também fico cada vez mais apaixonada pela Alice, a personagem da Natalie no filme. I can't take my mind off of you... Till I'll find somebody new...




Garden State (2005)

Três coisas: Natalie Portman, Zach Braff, The Shins. Esse filme é leve, mas dolorido também. Tem roteiro e direção do maravilhoso Zach Braff e Natalie em um dos seus melhores papéis. Preciso rever Garden State, mas lembro de ter ficado extremamente encantada/abalada quando vi pela primeira vez. Pra melhorar, a trilha sonora é bem boa, incluindo duas ótimas músicas do The Shins.




Black Swan (2010)

Angústia, angústia, angústia. Um balde de angústia, desespero e pressão por perfeição - que, claro (sempre bom lembrar), não existe (ou existe e te deixa bem loka fazendo o cisne negro). O perturbador Black Swan rendeu o Oscar de Melhor Atriz para a Natalie.




E você, também tem algum filme com a Natalie Portman  na sua listinha de preferidos?  :) 

Ch Ch Ch Changes

O coração nonsense vai mudar um tiquinho. Aos meus dois leitores: nada grave, prometo. Acontece é que há tempos ando querendo falar mais. Eu gosto de falar. Falar muito. Falar com as pessoas. Falar sozinha. Escrever, anotar em caderninhos, ser lida e ouvida. E ando sentindo falta de um canal direto, tipo este aqui, que já venho cultivando há tantos anos e pelo qual tenho o maior carinho - quase como uma roupa de adolescente, que já não te cabe mais, mas você ainda gosta, sabe como? Então talvez seja o caso de mudar mesmo. Expandir, aumentar. Dividir outras coisas, falar mais e com maior frequência.

Quero falar sobre filmes, sobre bad trips das vida, mas sobre coisas belas também. Entrevistas, séries, obsessões, viagens... Quero contar sobre a loucura que foi visitar a Colombia e sobre o quanto eu amei Berlim e quero voltar; sobre como é bonito quando a gente percebe que se apaixonou por uma cidade pela primeira vez. 
Quero falar sobre coisas despretensiosas, mas pode ter papo sério também.

 Isso é sobre coisas que me inspiram - o que inclui, claro, literatura! E vai ter resenha, vídeo e o escambau. Escritos meus e de gente que eu admiro e quero  mais é espalhar por aí. Devaneios, listas, e o que mais surgir pelo caminho.
Aleatoriedades & outras coisas do coração. 

Vamos ver pra onde o barco leva.

Coisa minha, coisa nossa.

Vem junto :)


Estrangeira

Numa cidade triste, à beira de um rio imenso
às vezes eu penso
que queria me reinventar

Ser babá em Paris
Garçonete em uma cidade desconhecida do Leste Europeu

Uma prostituta chamada Lola
em uma vila suja
do sul de algum país

Eu queria até
Uma pequena casa pra morar

Comigo-ninguém-pode
sobre a mesa lateral

Alguns maços de cigarros pra passar o tempo
Uma vida que seja outra
que não esta
uma mulher diferente
que não seja eu

Eu queria uma dor que virasse algo
um impulso que fosse forte
um desejo suficiente
de ser alguém

Ter meu nome estampado
numa página amarela de um livro
mesmo que descartado no sebo da esquina

Eu queria filhos
pra poder me amar pra além de mim
pra poder sair
e saber o que levar

eu queria não ter medo
da fragilidade do corpo
do girar do tempo

eu queria pegar um trem
naquela estação bonita
com cheiro de urina
e ir pra longe

mesmo sabendo que não há
terra firme
que se alcance
em lugar algum.

Love (Gaspar Noé): um close desconcertante nas relações afetivas


O novo filme de Gaspar Noé, “Love”, causou burburinho em Cannes. Isso porque em pleno 2015 a obra soou escancaradamente pornográfica. Alguns chamaram de pornô hipster, o que, não posso negar, talvez seja uma boa definição. Mas a real é que existem muitas e muitas camadas para além da metelância nesse drama erótico. 

  O filme é um belo retrato do desejo – no caso, o desejo dos 20 e poucos anos. E não é só do desejo sexual que eu falo. Há ali, na duração do longa, uma série de quereres que transparecem ao espectador. O desejo de ser alguém (que nem sempre dá certo), o desejo de viver novas histórias (que nem sempre termina bem), o desejo de ter um amor e amá-lo da melhor forma (que, óbvio, também encontra seus percalços). Love é um filme sobre todos esses quereres, que invadem com especial força o início da vida adulta e que às vezes guardam mais riscos do que se esperava. 

O protagonista é Murphy, um cineasta que não entende porque as relações afetivas/sexuais não são mostradas nos filmes como realmente são na vida real. O objetivo dele enquanto personagem é este: fazer um filme que dê conta de retratar as coisas como elas de fato são.
É como uma piscadela do diretor Gaspar Noé para o espectador, já que “Love” alcança exatamente o que o personagem Murphy almeja. É um filme visceral, quase sinestésico. O 3d ajuda isso. Dá quase pra tocar a fumaça que sai da boca dos personagens, sentir a textura da pele; ser transportada para baladas francesas e, desculpem pelo spoiller, dá inclusive pra esquivar o rosto quando a tela é invadida pela ejaculação de Murphy. Como um close nas relações afetivas, “Love” nos leva pra perto, pra dentro. É um filme desconcertante. Assim como o sexo na vida real o é. Há barulhos e pêlos e babas e dores e amores perdidos e dureza dos dias. Há o que dá errado, o que sai do script, o que não era pra ser, mas é - e é com isso que se faz o filme, com o que escapa.

Murphy e seus olhos, pelos quais temos alcance à história, estão chapados. É de uma viagem de ópio que o flashback acontece e conhecemos o triângulo, Electra, a vontade, une jeune femme française, o medo da perda, crianças que não são desejadas, um apartamento silencioso.
Entramos na de Murphy e sua pequenez, sua impotência diante da vida; também ficamos meio chapados com a tela escura, a pele, as luzes piscando e a música.

“Love” reforça aquilo que "Closer" já disse em 2004: Por que só o amor não é o suficiente?

[we always hurt the ones we love]

O filme também me lembrou um poema, cujo autor eu desconheço, mas que anotei há muitos anos num caderninho:

“amor é amor de bichinho
é cuspe é sangue é porra e raiva
amor pra ser amor direitinho
não tem cor nem dor nem flor nem nada”

Falando de "Love" pra uma amiga, ela me perguntou: “Qual é a história? Ando meio com preguiça de drama - o da minha vida já tá bom! Preguiça de gente se drogando e transando com todomundo”. Eu defendi o filme, disse que era um pouco isso, sim, que tinha sexo explícito, sim, mas que também tinha uma coisa por trás. E ela disse: “Coisa por trás = todo mundo é fodido”.

Sim. Exatamente. Três personagens fodidos, estraçalhados pelo desejo e pelo acaso. Há, o tempo todo, a presença da falta.

Mas há alguma coisa bonita ali, até sensível. Mas também triste e desesperadora.

Just like the real life. 

Um útero é do tamanho de um punho

Um útero é do tamanho de um punho
pode ser o nome de um poema
ou o título
de um tópico de livro médico

Um útero pode ser
na verdade
muitas coisas

Um buquê de flores sangrentas
ou sumo de uva pisada com pés de macho

Um útero pode escorrer
ou minguar

Há sempre alguém sem útero
querendo dizer do que ele é feito
(seus líquidos, suas pulsações)

Mas o que sei
é que um útero é do tamanho de um punho
e um punho pode ser bem forte.

(23.08.15 - depois de ler “Um útero é do tamanho de um punho”, de Angélica Freitas)

Trabalhar no que se ama: overrated ou a melhor decisão da vida?

O post "Precisa mesmo fazer o que se ama?" acabou tendo uma repercussão bem legal, então, para quem quiser ler mais sobre o assunto, indico:


“Não é todo mundo que pode, efetivamente, largar tudo e botar um mochilão nas costas (e aqui não faço nenhum julgamento moral sobre isso, é só uma questão de oportunidades e de classe), isso gera uma ansiedade absurda em quem já se sente oprimido pelo trabalho” [...] O problema é que o que circula são sempre os casos bem sucedidos. De quem pediu demissão e inventou um negócio bem sucedido. De quem nunca trabalhou em uma firma e vive de frila, rodando o mundo enquanto escreve uma ou outra matéria. Mas o que eu sempre me pergunto é: quem pode, efetivamente fazer isso? Eu acho restrito, ingênuo e glamourizado.


"As pessoas vão morar em Berlim para viver, não para trabalhar."


"Não sei se desistir de tudo e fazer o que você realmente gosta é uma atitude tão corajosa assim. Eu conheço muita gente que é apaixonada pela profissão que escolheu e está desistindo."


"Nem todo mundo pode, nem todo mundo quer."

E você? O que pensa sobre trabalhar no que se ama? Precisa mesmo? Tem necessidade de tanta pressão em relação a isso? É mesmo do trabalho que a gente deve retirar a nossa felicidade? Escreve aí nos comentários ou ali no facebook.

Abaixo, as respostas de algumas das pessoas com as quais eu falei - grande parte tem, mais ou menos, a mesma idade que eu (25):



"Overrated."

“A gente só tem que parar de pensar que é esse o caminho.”

 “Quais os esforços para se trabalhar no que ama? Amar algo e trabalhar são inversos. Amo gravura e amo dar aula, odeio me submeter àlgumas coisas da arte e odeio toda a burocracia e a péssima qualidade de ser professora do Estado. Melhor que trabalhar em outras coisas? Sim, mas nesse processo de transformar aquilo que amo em trabalho sinto tudo meio desgastante. Perde o tesão.”

“Fantasia de baby boomer.”

“O salário não acompanha o amor.”

“Eu acho incrível.”

“Eu sinto que o resto do mundo que caga pra isso é mais feliz. O que você ama pode se tornar uma merda quando você não tem reconhecimento, não tem retorno. Ainda dou valor pra isso e me sinto uma idiota quando vejo as pessoas que não dão passando férias em Bahamas porque empreenderam em algo que dá retorno. E aprenderam a amar aquilo. Retorno provoca amor, talvez.”

“Deixe o que você realmente ama guardado de uma outra forma que não seja trabalho e você o terá para sempre.”

“É fácil estar super feliz amando o trabalho quando se tem cama limpa e comida na mesa.”

“Talvez exista uma noção de amor romantizado com relação a trabalho.”

“Desafiador.”

“Sinceramente, só se der dinheiro porque hoje os melhores profissionais que trabalham por amor não são valorizados.”

“Enquanto eu precisar trabalhar simplesmente pra sobreviver e pagar as contas, não amarei o que faço, independente do que seja.”

“Acho que é o jeito mais rápido de transformar algo prazeroso numa merda foda.”

“Prefiro estar trabalhando do que fazendo qualquer outra coisa. Sem dúvidas. Meu trabalho me completa como ser humano.”

A única opção que deveria existir. E sobre "fazer o que ama não dá dinheiro", para mim é só uma crença limitante, existem "cachorro-quenteiros" riquíssimos, existem bordadeiras ricas, médicos ricos, artistas ricos, pilotos ricos, é só colocar o foco do seu trabalho em também gerar lucro. É investir o empreendedorismo no seu amor e ganhar com isso.”

“Acho mais uma ideologia criada pra fazer a gente se acomodar com o sistema. A gente trabalha muito, ganha mal, se obriga a aceitar as burocracias e injustiças do capitalismo, sobrevive pra pagar as contas. Mas tudo bem, porque ‘trabalho com o que amo’.”

“Trabalhar no que se ama é trabalhar com carinho. Quando você ama o que você faz, trabalha feliz. Trabalhando feliz você produz mais, produzindo mais o ganho é maior.”

“Em algumas áreas, mesmo quando você ama, é difícil ganhar dinheiro. Mas, como regra geral, você costuma se dedicar mais e fazer melhor e melhorar com o tempo em coisas que você faz por prazer. E isso é a receita para o sucesso. É muito difícil ser bem sucedido/se destacar fazendo algo forçado ou por obrigação protocolar.”

Não acho que a felicidade está em se trabalhar no que se ama. Acho sim, que quando escolhemos com o que vamos trabalhar, a gente precisa escolher algo que goste (e gostar não é amar). Primeiro, trabalhamos porque precisamos de dinheiro. Apesar de gostar muito do que faço, eu não amo. Tudo aquilo que é feito com amor, é puro e, principalmente, não tem preço.”

“Eu penso que [escolhendo trabalhar no que eu amo] tomei a melhor decisão da minha vida!”

“O trabalho que eu amo me faz acordar todo dia 5h30 da manhã, coisa que eu odeio!  Muitas coisas das quais eu me deparo todos os dias eu tenho um ranço danado. Mas fazer o que se gosta torna aquilo menos doloroso ao longo do dia!”

"Simplesmente essencial. E um dilema. Há três explicações diferentes pra eu ter escolhido uma profissão que não amo:
- mudei meu gosto;
- não tive a experiência necessária para saber o que realmente amava;
- deixei o que eu mais amava para hobbie seguindo os conselhos da minha família em fazer o que é mais lucrativo/valorizado e que ao mesmo tempo com o que eu tenha facilidade em fazer.
Hoje, divido meu tempo no meio exatamente entre minha profissão (meu sustento) e minha paixão. Sou muito mais feliz fazendo o que amo, mesmo isso não dando lucro nenhum.”


"Meu maior sonho, mas ele parece cada vez mais distante."

“Não há amor que resista a uma conta bancária no vermelho no fim do mês.”

Precisa mesmo trabalhar no que se ama?

Há alguns anos vem rolando um movimento bem forte no que diz respeito a trabalhar no que se ama. Se amar o trabalho parece uma fórmula perfeita, por que há ainda tanta angústia?

A diferença entre a nossa geração e a geração dos nossos pais, por exemplo, é que os nascidos no final dos anos 80, começo dos 90, foram bombardeados com ideias do tipo: você precisa trabalhar no que ama, trabalhe no que ama e não trabalhará um dia sequer, faça seu trabalho com paixão.
A coisa toda é bonita na teoria, mas, na prática, fez com que a nossa geração fosse a mais mimadinha das últimas décadas. Somos a geração dos frustrados e dos incompreendidos.


Uma amiga disse esses dias no facebook: “Acho que o momento-chave que marcou a nossa geração como "mimada" e "em busca da felicidade" foi ali quando gravaram 4 finais pra Efeito Borboleta”.

Uma conversa com outra amiga, que se mudou recentemente para São Paulo, foi mais ou menos assim:

“- Fico pensando até quando vale à pena se ferrar para fazer o que gosta.
- Eu fico achando que meio que não vale, não. O negócio é ter dinheiro. Daí você viaja, compra roupa e tem uma casa legal. Ter roupas e viajar deixa a gente feliz... pronto. Porque, meu, eu gosto do que eu faço, mas nessa área [letras] o salário é ridículo. De que adianta? Você se mata, paga as contas e o dinheiro acabou. Eu não sei o que vai ser da gente. Eu meio que já desencanei de tudo." 

“Minha vida tá uma merda, o que eu faço?”, eu penso às vezes.


O problema é que, de uma forma ou de outra, a vida de todo mundo também está - exceto se você já tem dinheiro o suficiente para não se preocupar com coisas do tipo. É o karma da nossa geração. ‘Tá todo mundo mal”, já afirmou a maravilhosa Jout Jout. E ela ainda reforça: “Esse desconforto independe de formação acadêmica. [...] Não é porque eu fiz comunicação, não. Galera de engenharia também tá mal”.
Falaram pra gente, desde sempre, que éramos especiais, que deveríamos sonhar alto e acreditar nesses sonhos, que poderíamos trabalhar por amor, por paixão, no que a gente realmente gosta - como se o mundo não fosse feito basicamente de um monte de gente fazendo coisas das quais não se pode efetivamente gostar. Não que não se pode, mas isso apenas não é uma questão. É só trabalho. Mas a nossa geração tem questões. O tempo todo. É como se a gente se sentisse no centro do mundo - e talvez a gente ache isso mesmo! E isso é tão elitista e prepotente que eu não sei nem por onde começar. Exaltar o trabalho com amor como a única forma de ser realmente feliz é ignorar a impossibilidade de escolha da maioria do universo, é se sentir a última bolacha do pacote.


Você acha que alguém perguntou para os seus pais se eles se sentiam realizados com o próprio emprego? Se estavam fazendo aquilo por amor, porque isso era o mais importante? Acho difícil. Isso é uma coisa relativamente nova que um pouquinho de história do trabalho explica.
Se por um lado ninguém pergunta para o  lixeiro ou para o encanador se eles fazem aquilo que amam, de outro ângulo observei nos últimos anos um movimento que pode ser resumido a: “eu sou uma empresa muito legal e muito maravilhosa, então vou te pagar muito pouco, mas você vai aceitar trabalhar aqui porque é incrível”. Ou: "te dou rede pra descansar, mas 13º jamais".
E daí penso: do que adianta, deus, trabalhar num lugar bacana e não ter dinheiro sobrando nem pra ir ao cinema? Adianta muito se seus pais te bancam, o que não é a realidade da maioria. A real mesmo é que o jogo de expectativa x realidade tende a ser frustrante e em algum momento as razões simplesmente se esgotam. 



Mas eis que chega a roda-viva e carrega a roseira pra lá

Chico Buarque, esse gênio, já avisou: “A gente vai contra a corrente até não poder resistir... Faz tempo que a gente cultiva a mais linda roseira que há, mas eis que chega a roda-viva e carrega a roseira pra lá”.

Tinha uma editora x em que eu queria muito trabalhar, então fui conversar com uma amiga que tem amigos que trabalham lá. A resposta? “Sai dessa. Tipo trabalho escravo: você morre de trabalhar e pagam super mal”.


O que eu quero dizer é que fazer o que se ama pode ser muito legal para alguns, mas é de uma liberdade aprisionadora para outros. Primeiro porque nem sempre dá pra escolher, segundo porque fazer o que se ama nem sempre paga as contas, terceiro porque paixões podem ser passageiras - não por acaso as pessoas da geração Y são as que mais pulam de um emprego para outro.


Trabalho é trabalho, não precisa ser sua vida toda. Você pode, sei lá, amar cinema e ser bancária, ou ser escritor mas trabalhar como advogado. É enclausurante direcionar todas as suas aspirações pessoais à sua vida profissional. Se dá certo pra você, ótimo. Enquanto isso, o resto do mundo faz o quê? Chora em posição fetal assistindo netflix? Não precisa ser assim, precisa?



Os 20 e tantos anos são uma zona obscura, cheia de incertezas. No texto “A armadilha do faça o que você ama” há o seguinte trecho: “Eu não acho que não podemos amar o que fazemos. Mas também não entendo porque isso deve ser imperativo. Percebe como a ideia de amar o que se faz está sempre vinculada a uma ideia de ser feliz trabalhando? Por isso que toco sempre na palavra felicidade e na exigência de ser feliz que nos cobram o tempo todo. A Maria Rita Kehl tem se preocupado bastante com essa temática. E eu trago ela pra cá: a gente precisa ser feliz o tempo todo com o trabalho que a gente faz?”.

Felicidade imperativa

"Seja feliz, trabalhe no que você ama!" ou "O trabalho dignifica o homem". A ideia pode ser bonita, mas é também muito perigosa - não por acaso foi usada pelos nazistas, inclusive sendo estampada nas entradas de campos de concentração. Voltado para os dias de hoje, é um discurso forte que pega a gente para o bem e para o mal. Depende de n fatores, inclusive sorte. Para mim, tem soado cada vez mais como uma utopia, um simulacro. Como Alice diz em Closer, "It’s a lie. And everyone loves a big fat lie".


Uma amiga jornalista com quem eu conversei sobre o assunto disse que, pra ela, trabalhar com o que se ama está ligado a encontrar sentido no que se faz. E eu digo: o sentido é relativo, né? Pode ser reconhecimento pra você, dinheiro pra mim, mudar o mundo pra aquela amiga, comida na mesa pra outra pessoa, poder viajar para fora do Brasil uma vez ao ano pra você ou só conseguir ter uma hortinha orgânica e uma casa com quintal pra aquele outro. A conclusão disso: eu tenho pensado que as pessoas, cada uma ao seu modo, só tem que fazer aquilo que acham que tem que fazer.


Claro que acho que pode ser maravilhoso trabalhar com o que se gosta, assim como acho que seria maravilhoso só viver de batata frita e sorvete de pistache (na verdade talvez fosse um pouco enjoativo...). Seria incrível se todo mundo pudesse fazer isso, mas as coisas simplesmente não funcionam assim.
E daí penso que entre trabalhar numa coisa que eu realmente gosto e que não me dá retorno e trabalhar numa coisa suportável que me dá algo, talvez eu opte pela segunda opção. Afinal, em que momento o trabalho deixou de ser um meio para começar a ser um fim? Mas, por outro lado, e usando um exemplo muito prático, sinto um prazer enorme em ser jornalista, em ouvir pessoas, escutar histórias, encarar o papel em branco. Isso faz com que eu me sinta bem, mas não paga minhas contas. Quando termina a persistência e começa a burrice? Difícil responder. É tipo o último filme do Zach Braff, Wish I was here, em que o personagem que ele faz quer ser ator, dá sempre tudo errado e ele é pressionado pela mulher a tomar uma decisão de ~adulto~. Então ele diz algo como: “Sinto que ainda não é hora de desistir. Ainda quero tentar”.
Eu também quero tentar e acho que você, que me lê, também deve querer, mas acho também que trabalho não é toda a nossa vida e que problematizar todas essas questões acaba deixando tudo mais leve, mesmo pra gente.


Como eu disse antes, se dá certo pra você, ótimo! Considere-se uma pessoa sortuda. Mas para o time dos angustiados com a passagem do tempo e o open de frustração, eu digo: Precisa mesmo trabalhar no que ama? Se a resposta for sim, vá em frente. Se a resposta for não, tá tudo bem também. O mundo todo continuará existindo. Ainda teremos livros, filmes, poesias, comidas gostosas e vídeo games. Você ainda poderá fazer as coisas das quais mais gosta - e talvez até tenha mais dinheiro pra usufruir delas, afinal. 
Independente das escolhas ou das imposições, nós ainda teremos nós mesmos. Pode não parecer, mas a gente não se resume ao que trabalha. Isso só é parte do que somos, não nosso universo inteiro. 



01:12


O relógio gira
meio de trás
pra frente
Clare Elsaesser
E eu não sei dizer 
se é hora de ir

Ou de ficar mais uns dias
(Talvez uma tarde e meia
Uma noite além)

Café na xícara, pão na frigideira
O ar frio da velha janela

E a sensação de que 
Aqui 
Entre o quarto
e o mundo
há 
fundos
mares a navegar.


(27.04)

Estante


Na estante
As agendas de 1990
(Nas quais eu já sofria por amor)

E um espaço vazio

Para os livros que eu ainda não li.

[2012]

Avião, neurose e vontade de viver

Depois dessa bad do voo da germanwings eu fiquei obcecada. De novo. Dessa vez com avião. É complicado, amigos. Durante essa minha vida de 25 anos (mas que parecem 87), já obcequei num misto de pânico e histeria muitas vezes. Nos tempos do Orkut (sdds), encalacrei numa comunidade chamada “Profiles de gente morta” e virei uma espécie de detetive do Law and order, só que com 14 anos, acne e sem dinheiro. Eu investigava muito. Entrava no perfil dos familiares, tentava desvendar coisas que poderiam ter ficado pra trás, via as fotos, as mensagens mórbidas no srapbook da pessoa (apenas parem de fazer isso, sério!). Ficava totalmente neurótica. Passava do total apego à história para o terror noturno de imaginar que aquilo ia ficar em mim de alguma forma, tipo um encosto, bad karma, algo assim (talvez tenha ficado, nunca saberemos).
Eu era tipo a galera da globo news depois do acidente nos Alpes Franceses: apesar do pedido das autoridades responsáveis para que as pessoas parassem de elencar hipóteses sendo que ainda nada tinha sido encontrado, tudo o que todo mundo fazia era elencar hipóteses. Eu fiquei na merda com esse acidente. Uma merda bem grande. 
Tenho bad com avião, mas é tipo uma bad seletiva. Quanto mais eu voo, menos medo tenho. Mas se fico um tempinho sem viajar, já me bate o desespero. Na dúvida, levo sempre um escapulário bento comigo e rezo compulsivamente o Santo Anjo - sempre bom garantir. Mas o que eu devo fazer depois disso? Depois de perceber o quanto as pessoas sãio insanas e que coisas ruins podem acontecer a qualquer momento?
Entrei numas tão erradas, que, olha, vocês não acreditariam. Levei até bronca de amiga via Whatsapp. Li textos sobre como sobreviver a um acidente de avião mesmo sempre pensando que eu queria morrer instantaneamente quando alguma merdinha fosse acontecer. Indicaram sempre usar roupa de algodão porque polyester adere na pele em caso de incêndio (!!!!). Prefiro nem falar sobre o quanto essa imagem do tecido se fundindo à pele soou too much pra mim. Não dá. Não consigo.
Depois de muito pesquisar sobre a vida do co-piloto, ver fotos das vítimas e concluir que nunca mais vou entrar num avião, decidi parar com isso e tentar superar todas as histórias bizarras que já aconteceram comigo em voos. Apenas para citar uma, de Porto Alegre para Londrina, com escala em Curitiba, uma mulher que havia feito curso de comissária veio tremendo a viagem inteira e falando sobre o quanto tinha medo de avião (eitcha Freud! se isso não for gozar do sintoma, não sei o que é). Ela desesperava a cada tremidinha que o avião dava. Nem eu, que sou meio passada, seria tão louca assim! Quando paramos em Curitiba, ela olhou pra mim e falou: “- Bom, agora que eu já cheguei, vou te falar porque não pode sentar em uma poltrona que não é sua. É pra facilitar a identificação dos corpos em caso de acidente.” E daí eu te pergunto: que tipo de pessoa em sã consciência, que fez um curso de comissária de bordo, fala isso pra um passageiro? E tipo, caso um acidente aconteça, eu morri, sabe? Não vou ficar me preocupando previamente com a identificação do meu próprio corpo. Ela foi muito escrota, sério. Tenho ódio dela até hoje porque voar nunca mais foi igual depois disso. Pra piorar tudo, esse voo estava cheio de um pessoal de um coral religioso e não conseguiu pousar de primeira em Londrina. Pensei: vou morrer com certeza. Não aconteceu.
Optei por nunca mais voar e conclui que ônibus também não é uma boa ideia, nem carro, nem sair de casa. A melhor opção é ficar mesmo em posição fetal assistindo Netflix. Daí hoje acordei e decidi que vou parar com isso. Parar de encanar com os voos e tudo mais, ou ia ter que passar de uns fitoterápicos ok para ansiedade (inclusive indico muito Pasalix) para um Rivotril, no mínimo. Tudo mais = a vida. Provavelmente não vou conseguir? Sim. O problema é que eu sou control freak e é muito difícil aceitar o quanto somos absurdamente frágeis. Todos nós. For here am I sitting in a tin can / Far above the world / Planet Earth is blue, and there's nothing I can do...


 É muito fácil morrer, concluí numa conversa com a minha mãe esses dias atrás. Como será que é? Espero não descobrir tão cedo. Tem muito lugar pra ir ainda, muito medo pra passar, muita nóia, muita coisa pra obcecar. Muita vida, afinal.

Como se eu não fosse uma pessoa de verdade

Pareço uma barata tonta tentando entender o que significa você ter ido embora.
Te deixei no aeroporto e fui resolver coisas da vida prática, tipo procurar uma estante para os livros na loja de móveis usados. Simulei a sua não ida, quase como se você nunca tivesse chegado. Uma ausência de dor, de repente. Não sinto nada.
A cidade parece sonolenta, como se nada fosse real. Nem eu, nem você, nem as turbinas do avião zumbindo no meu ouvido.  

Clare Elsaesser
Hoje o relógio soou às 08h. A gente tinha planos de acordar, buscar pão francês, fazer um café da manhã gostoso e ficar bem perto, recapitulando o nosso plano meio torto, conversando sobre como seria mais fácil a gente não ter ambição alguma e ficar pra sempre numa cidade pequena trabalhando numa empresa medíocre. “A gente podia ficar por aqui, trabalhar em qualquer lugar x e construir um império”, você disse, meio rindo. “Deve ser bom não pensar o tempo todo. Apenas ir vivendo mesmo. Tipo sair do trabalho de 8-horas-por-dia-com-duas-horas-de-almoço-e-carteira-assinada, comprar queijo e presunto no mercadinho da esquina, chegar em casa, comer e dormir”, eu disse. “Na verdade deve ser horrível ser assim”, a gente pensou.
A função soneca tocou às 08h15, 08h45 e depois 09h00. Acordamos atrasados e você me olhou com cara de tristeza quando viu que o tempo estava bom. A gente tinha torcido pra dar um temporal bem feio para o voo ser cancelado.

Cheguei em casa sem você. Tudo bem, eu sempre chego em casa sem você, já que a gente não mora junto. Mas hoje eu cheguei efetivamente sem você. Até os prédios me olharam com pena. Tenho vontade de ligar para todos os meus amigos e pedir para que todos eles venham até mim, façam fila na minha porta, me tragam vasinhos de suculentas, me sugiram séries novas para assistir. Tenho vontade de pedir socorro, de rasgar os documentos, o passaporte, as fotos antigas e começar tudo do zero com você. Mas não posso fazer isso, porque 1: simplesmente não dá agora 2: preciso do meu RG pra pegar o avião pra te visitar no mês que vem.

Eu te disse que ia ser legal, que Porto Alegre é bacana, que a gente vai poder ir pra Gramado, Canela e pra Montevidéu com toda a certeza. Mas é mentira minha. Eu odeio Porto Alegre com todas as minhas forças nesse momento. E odeio o fato de o único voo direto pra essa droga de cidade ser com uma merda do avião de hélice que quase caiu na única vez em que você o pegou.

Olhei pro espelho do meu banheiro de um jeito firme, apertei os olhos querendo chorar. Sempre fazia isso quando eu sofria na infância. É tipo um jeito tosco de ser espectadora da sua própria tristeza e ao mesmo tempo dirigir de forma minimante estética as próprias emoções. Não preciso dizer que nunca dá certo. Eu não consegui chorar. Tá preso aqui, 1 cm embaixo da glote, o que causa um bolo estranho na faringe e uma falta de ar. “Meu coração tá quebrado”, eu falei depois de te dar um beijo e cheirar o seu pescoço. “Eu te amo. Vai dar tudo certo”, você disse com cara de desespero e com uns olhos de criança.
Vai, sim. Claro que vai.
Mas agora, assim, enquanto o ponteiro não gira, enquanto a vida não ajuda, eu sinto como se o tempo tivesse parado na hora em que você entrou no portão de embarque. Eu sinto como se eu não fosse uma pessoa de verdade.
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