Para o meu menino ou Brincando de Vinicius de Moraes

Moonrise Kingdom
Porque você é o meu menino e tem a voz mais bonita do mundo – quando canta e quando sussurra frases de amor rente ao meu pescoço, colado ao meu ouvido. E eu te prometo o maior amor do mundo, desses de menina adolescente que jura por céus e mares que vai amar pra sempre o menino mais bonito da escola. Te juro esse amor que sinto e que não vai acabar nunca porque somos eternos, sofremos por qualquer coisa e nos amamos no nascer da manhã.
E porque você é meu menino e chorou quando eu briguei com você porque você queria comer uma coxinha frita às 3 horas da manhã.  E porque você sonha que eu vou fugir com o moço que nem tem nome (porque não existe) pra Budapeste, Londres, Paris e fica com isso na cabeça, mal sabendo que no meu sonho quem está de mão dada comigo em todos esses lugares é você mesmo e seu jeito que me completa até o último vão. E porque você é meu menino e finge que não acredita em signo, astros, búzios, sonhos premonitórios e força de pensamento, mas acredita tanto nisso que sonha e já treme achando que qualquer coisa vai acontecer.
E porque quando você se apaixonou por mim ficava preocupado se eu ia te achar feio ou bonito e eu também ficava preocupada se você ia me achar feia ou bonita.
E porque você tem um rosto tão bonito e quando eu acordei com você pela primeira vez eu queria sair correndo e gritar bem alto pro mundo inteirinho ouvir que eu acordei do lado do homem mais bonito do mundo. E porque eu ficava decorando seus traços, contando suas sardas, fazendo carinho nos pêlos do seu peito e pra você eu estava só te tocando mas na verdade eu estava era decorando seu corpo inteiro pro caso de você me deixar algum dia.
E porque você é meu menino e tem cabelo laranja com duas partes pretas e mesmo se eu encontrasse um outro menino igualzinho a você ele não teria o cabelo laranja com duas partes pretas e eu não iria amar ele do tamanho que eu amo você.
E porque você fica parecendo uma criança de 7 anos embaixo do chuveiro, com o cabelo todo pra cima e o olhar molhado. E porque você fica bonito lendo e cantando e também fica bonito quando está dentro de mim.
E porque você é meu menino e lê trechos de livros comigo sem soar chato.
E porque você é meu menino e eu só quero a sua felicidade e te obrigo a ser feliz.
E porque você é meu menino e dá tremelique no meio da noite pra eu fazer funé e eu me finjo de irritada, mas na verdade eu adoro.
E sendo você o meu menino, eu lhe peço que nunca mais me deixe sozinha, como nessa última semana, porque fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as pessoas nem ousam me amar porque dariam tudo para ter uma pessoa penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê.
E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é o filho dileto de todas as pessoas que eu amei; e que todas as pessoas que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é lindo, porque eu sou a menina com uma flor e você é o meu menino. 
Texto de 2010. Escrito em cima da crônica "Para uma menina com uma flor", de Vinicius de Moraes.

As vantagens de ser invisível

p. 49
Fuçando no skoob, vi um comentário de uma leitora dizendo que esse é o melhor livro que já leu na vida porque foi o que mais mexeu com ela e a fez querer ser uma pessoa melhor.
O livro em questão é “As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky, e o que a leitora falou realmente faz muito sentido.
Quem não sabe bem do que se trata pode julgar a história meio bobinha. Inclusive conheço quem deixou de comprar um exemplar por estar na estante de “literatura infanto-juvenil” - como se esse tipo de literatura fosse menor ou soasse rasa para aqueles que já passaram dos 20. Tenho 23 e leio Lygia Bojunga, ou seja. Até aí, bem ok pra mim. O fato é que peguei pra ler esse livro de uma forma meio vou-ler-algo-mais-leve e fui realmente pega de surpresa pela sensibilidade, estilo e opção do autor por construir a narrativa em cima das cartas do protagonista para alguém que a gente não faz a mínima ideia de quem seja - e que talvez possa ser visto como o próprio leitor. Acertei na parte do algo-mais-leve, mas também tem muita coisa de absurdamente pesada nessa narrativa.
A história gira em torno de Charlie, um adolescente cheio de inseguranças e questionamentos. Ele está indo para o ensino médio, seu único amigo se matou e ele parece não ser muito bom com amizades - fala pouco e pensa muito. O fato é que Charlie acaba cruzando com Patrick e Sam, dois veteranos, e a relação dos três vai se desdobrando e construindo coisas novas pra Charlie.
Até aí a história é clichê, mas de repente o autor nos surpreende tocando em tabus e assuntos tensos de uma forma leve e sutil sem deixar de ser dolorido quando deve ser. Assuntos como o suicídio antes mencionado, homossexualidade, preconceito, drogas, aborto, violência contra mulher e pedofilia estão presentes no livro. E essas coisas não estão simplesmente soltas na narrativa, mas são construídas de uma forma a soar um pouco como “lição”,  não no sentido moralizante, mas talvez no sentido de abrir os olhos do leitor e fazer com que ele mesmo deseje ser uma pessoa melhor - como quis a leitora que cito no começo do texto. Ou talvez ainda no sentido de conseguir deixar as coisas ruins pra trás e saber lidar com isso. Esse ponto me fez pensar que esse é realmente um ótimo livro para ser discutido em sala de aula com alunos da mesma faixa etária dos personagens - final do ensino fundamental e começo do ensino médio. Quem sabe um dia...
Achei realmente bom porque já tive 15 anos e também não me sentia parte de nada. Porque tenho 23 e às vezes ainda me sinto da mesma forma. Porque esse livro diz muito mais do que está escrito. Porque me fez lembrar de coisas, de livros e de músicas. E provavelmente também vai te fazer lembrar de coisas, de livros e de músicas. E de como você costumava ser quando não se sentia parte de nada. Ou de como pertencer a algo pode ser bom e triste ao mesmo tempo. Ou de como existem Patrick’s e Sam’s na vida de todo mundo. Ou de como é quando eu me sinto infinita.

p. 221
Caso alguma coisa tenha te escapado desse texto é porque você ainda não leu o livro e ainda não sabe do que eu estou falando. E eu quero que você saiba do que eu estou falando. 
Se ainda não leu o livro, leia. O filme também é muito bom e bem fiel ao livro (o diretor do filme é o autor do livro, ou seja).

Sem saber onde pôr as mãos

Acabei de ler A primeira pessoa, da elogiadíssima Ali Smith. O fato de ser quase 5 horas da tarde de um domingo que insiste em pingar é a explicação por não escrever muita coisa sobre esse livro. 
Por muita expectativa ou momento errado, não gostei. Apesar disso, o último conto, que dá título ao livro, foi o único que conseguiu realmente me causar algo - ou dizer o que eu preciso/quero ouvir agora. Enfim. Tá aqui:

"Você não é a primeira pessoa com quem eu já fui tantas vezes pra cama no mesmo dia,  eu digo.
Espero que não, você diz.
Você não é a primeira pessoa que me renovou, eu digo.
E não serei a última, você diz.
Você não é a primeira pessoa que pensou que podia ser meu salvador ou minha salvadora, eu digo.
Eu é que nunca ia ter esse tipo de presunção, você diz.
Você não é a primeira pessoa que espirrou seja lá que suco de amor que você espirrou nos meus olhos pra eu ver as coisas de um jeito tão diferente, eu digo.
Ãh? você diz.
Aí você faz a cara inocente que faz quando está fingindo que não entende.
Você não é a primeira pessoa com quem e já tive conversas boas que nem essa, eu digo.
Eu sei, você diz. Já passei por tudo isso, e tal. Você se sente no auge da experiência.
Valeu mesmo, eu digo. E você não vai ser a primeira pessoa que me deixou por causa de outra pessoa ou de outra coisa.
Bom, mas se tudo der certo isso ainda vai demorar um tanto, você diz.
E você não é a primeira pessoa que, que, ãh, que -, eu digo.
Que te deixa sem saber onde pôr as mãos? você diz. Bom. Você não é a primeira pessoa que já sofreu por amor. Você não é a primeira pessoa que bateu na minha porta. Você não é a primeira pessoa por quem eu arrisquei um braço. Você não é a primeira pessoa que eu tentei impressionar com minha brilhante performance de quem finge que não se impressiona com nada. Você não é a primeira pessoa que eu faço rir. Você não é a primeira pessoa e ponto final. Mas você é a única pessoa agora. Eu sou a única pessoa agora. Nós somos as únicas pessoas agora. Isso basta, né?" 
(p. 143-144)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...