Como (não) ser um escritor

O caminho entre ser um escritor e tornar-se um escritor é menos óbvio e auto-explicativo do que parece. Superficialmente, ser um escritor é nascer com a alma na ponta das palavras. Tornar-se um é saber colher palavras na ponta dos dedos. Clarice, com certeza, faz parte do primeiro grupo. Enquanto João Cabral de Melo Neto, do segundo. 

Descobri o que eu queria ser lá pelos 14 anos. Naquele momento eu era apenas uma menina que nunca soltava os cabelos, matava aula pra fumar e queria viver muito pra ter histórias pra contar. Nesse período, escrevi muito. Textos horríveis, é fato. Sem a melhor qualidade estética. E o fato de julgá-los sem qualidade estética com os olhos de agora só me faz ser mais intelectualóide e menos escritora.
Eu queria ser escritora. Ganhar dinheiro nem me passava pela cabeça. Eu só queria escrever. Nos meus delírios ultrarromânticos da adolescência, tudo o que eu queria era uma máquina de escrever, um cigarro e um café. O espaço, o tempo, os personagens... tudo conspirava pra construção de uma boa história.
Cresci, as coisas começaram a se mostrar um pouco mais preto e brancas do que eu imaginava. O que fazer pra ser uma escritora? - Letras, claro. Nada me parecia mais óbvio.

Como não ser um escritor

Estudar literatura me afastou da própria literatura. Literatura não tem nada a ver com teorias estruturalistas, historicistas, ou sei lá de que caralho a quatro resolverem chamar. Literatura é carne viva. Hoje, prestes a terminar o último ano do tão idealizado Bacharelado em Estudos Literários, sinto que o mais fundo que consegui alcançar foi uma pele morta e seca, cheia de palavras escolhidas e conectivos que fazem o autor do texto - no caso eu - parecer inteligente.
Estudar literatura é uma grande furada. Não me julgue mal. Tem sim seus momentos de glória. Mas agora, pra mim, não passa de uma grande furada.
Estudar literatura me fez perder a inspiração. Não consigo mais pensar livre, não consigo mais escrever livre. Não sei mais o significado de fruição. 
Leio Caio e não consigo simplesmente suspirar como fazia aos 14 anos. Dormir com o livro na cabeceira agora tem outro significado - geralmente apegado a trabalhos inúteis e a livros que eu não leria por vontade própria. Ao invés de acordar no meio da noite com uma frase incrível que faria muito sentido num conto que eu jamais escreverei, acordo no meio da noite com a ideia de um artigo científico incrível pra apresentar em um congresso no qual 0,1% das pessoas prestam realmente atenção no que você quer dizer. A maioria, e inclusive eu, estão ali pra enriquecerem o maldito Currículo Lattes e conseguir um Mestrado-Doutorado-com-bolsa-dar-aula-e-ser-(in)feliz.
Vida acadêmica é uma merda.
Eu era mais feliz burra, inocente, fumante de bares com salsicha em potes de conserva, bêbada nos fins de tarde e ainda bêbada nos começos de manhã. Eu era mais feliz escrevendo, só escrevendo. E lembro de um texto meu em que eu dizia no final - em menção a um poema de Ana C. - Não, isso não é literatura.
Agora, minhas palavras vêm carimbadas. Isso é literatura. Isso almeja ser literatura. Quem a escreveu já leu esse e aquele livro e sabe quem é Afrânio Coutinho, Alfredo Bosi e o babaca do Massaud Moisés. 
A literatura deixa de ser literatura quando começa a ser levada muito a sério.
Do alto do meu quase título de Bacharel em Estudos Literários, nunca quis tanto dizer: meu cu pra tudo isso. Nunca tive tanta vontade de sair correndo.

Nunca tive tanta vontade de não fazer literatura pra, finalmente, conseguir fazer literatura de novo.

7 comentários

  1. Layse,

    Isso aqui foi um escancarar de olhos para mim, que sempre me penitenciei por não ter largado Direito e ter ido fazer Letras ou Estudos Literários a fim de me tornar um escritor, como sempre sonhei:
    http://www.youtube.com/watch?v=p34twZwWHZ4
    No fim das contas, tudo que importa é ler, sentir e escrever. Estudar literatura não forma escritor, forma estudioso de literatura.
    Assim sendo, faça como eu: pegue o diploma, estruture a desditosa rotina diária do ganhar cifrões para pagar as despesas mensais, e, no meio de tudo isso, escancarando o dia-a-dia como desbravador adentrando a mata serrada com lâmina de alto corte em mãos, escreva.
    Não há jeito. Se nós, que não vivemos sem literatura, não escrevermos, é fato: morremos de tédio, de fratura da nossa espinha dorsal (para bem além da espinha física), de depressão por texto não regurgitado, não parido, não dissecado.
    Isso é tudo. Literatura são vísceras, não análises. Quem analisa é psicólogo.

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  2. Caramba! como me identifico com isso!!!!
    Saca, eu to no segundo ano do curso de sociais. No primeiro ano foi aquela empolgação, mas vai passando o tempo eu vou observando a tal vida acadêmica e sinto TÉDIO, é isso que eu sinto. O que importa mesmo pra esse povo é o quanto você lê, o quanto publica, o quanto isso, aquilo...como viver desse jeito? quantificando tudo, um competição louca.
    Parece que eu vou me esgotando, vou "racionalizando" tudo, não consigo escrever muitas vezes, e que saco... pra onde vai a espontaneidade?? os desvarios?? a gente enfia tudo num saco e deixa guardado num canto, pra usar quando terminar aquela pilha de textos.
    Não há espaço pra pessoas inconstantes. Pra competir tem que ser pessoa contida, produtiva, disciplinada, e toda essa bosta toda que algumas áreas ciências sociais critica, mas que no final todo mundo pra ser acadêmico se transforma.
    E pra ser escrit@r? Pra ser poeta?
    Onde arranjar dinheiro pra se sustentar sem matar a alma????? Alguém me diz???

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  3. Layse,

    Primeiro de tudo quero dizer que acho engraçado isso de só te conhecer pelos blogs da vida e às vezes me identificar tanto com você. Mas enfim, isso são outras palavras.

    Li seu texto no trabalho, e tenho tido quase dor de não conseguir escrever esses dias. Mesmo. Meu único escrever é sobre o não-escrever e isso mata. Eu lembro que resolvi fazer design depois de muito pensar em fazer letras ou jornalismo. No primeiro ano de design eu já não via mais magia no design e me sugeriram trocar pra um desses cursos que tenham a ver com a minha "alma de escritora" como diziam. Eu lembro que eu disse "eu aceito que matem a magia do design que não é a minha vida, mas eu não saberia viver com a magia morta da única coisa que me faz viva, que é escrever". Tinha muito medo de racionalizar a escrita e deixar de sentir, como você mesmo diz. Tenho, ainda. às vezes tenho tanta-tanta coisa pra fazer que perco o tempo de ser essa pessoa livre que vive pra escrever e fico assim, meio morta-viva sem conseguir criar. Ando assim, é meio uma sensação de quase-morte o não criar.

    Mas penso que, se isso é o que você escolheu ser, um dia renasce, sabe? A gente se conhece precisando das palavras, parece. Acho que você também é assim, escrever é tipo nosso elo com o mundo. E tem dessas. Desses momentos cinzas de morte do não criar. Mas tem de passar, isso ainda não morreu em você. Acho que não tem curso de literatura, não tem teoria literária, não tem trabalho chato que mate o escritor dentro do escritor. Talvez, de vez em quando morra um pouco o sangue, perca-se um pouco as víceras, a palavra fique um pouco apagada. Mas morrer não morre. Ainda tem uma escritora dentro de você que vai renascer. Só precisa de tempo. A vida acadêmica mata a gente, mas passa. Também achei que nunca mais seria capaz de escrever depois de entrar pra vida "adulta". Ainda acho às vezes. Ontem estava achando. Mas acho que se morrer a palavra a gente também morre, então uma hora ela renasce nem que seja só pra gente sobreviver.

    Boa sorte, vai passar.(e jesus, como eu escrevo!)

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  4. Eu quero ser professora.
    Nunca quis ser escritora.
    Sempre achei babaca quem se auto-intitulava escritor.
    Tenho preconceito com quem diz: eu estou escrevendo um livro (sempre é romance, nunca outra coisa).
    Odeio quem faz propaganda da própria escritura.
    Odeio quem impinge o que escreve.

    Odeio.
    Eu quero ser professora.
    E ensinar o prazer da literatura.

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  5. Gustavo Melquíades15 de setembro de 2011 18:06

    Rafaela,

    Só para constar: se os escritores não fizessem propaganda da própria escritura, você não iria querer nunca ser professora com o intento de ensinar o prazer da literatura, simplesmente porque não haveria literatura a se ensinar.

    A autopromoção, desta forma, é essencial.

    Gustavo

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  6. Cara, não posso falar sobre o curso, nem literatura, por que eu gosto de ler, mas minhas notas em literatura nunca foram excelentes, e o curso nunca me atraiu, mas eu acho que você ta meio frustrada... se acalma guria, agora que só falta um ano, sei lá... passa rapido sabe? :)

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  7. Se você escrever mais sobre minha vida vai ter que pagar direitos autorais.

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