Cadela abandonada ou como abrir as cortinas da retina


Tenho alma de cadela abandonada. Não, não dessa forma. Ao contrário do que você pode imaginar, não há nenhuma conotação sexual nessa minha afirmação. Repito novamente para tentar deixar as palavras mais claras: tenho alma de cadela abandonada.
Não posso ver cachorro na rua. Ontem mesmo estava saindo da garagem do meu prédio quando olhei pro meio fio e vi um cachorro com um olhar tão triste que não tive alternativa a não ser parar o carro e ficar conversando com ele com uma baixeza de mentalidade que o humano só consegue alcançar quando se dirige a bebês ou a cachorros. Eu era um ser humano com a cabeça para fora do vidro do carro e com um cachorro por trás do olhar. Por trás do olhar é o mais fundo que se pode chegar antes de atingir o coração.
Pouca gente consegue ultrapassar o olhar. Pede-se delicadeza e presença de espírito para saber o momento exato em que se afasta as cortinas da retina. O cachorro estava lá, deitado por trás dos meus olhos, colado à minha íris.
O fato é que perdi a noção do tempo. Fiquei lá com o cachorro a me olhar pelos meus próprios olhos, falando, é claro, com a voz débil mental típica da situação. A voz débil mental é importantíssima, é como a trilha sonora que toca enquanto as cortinas da retina são abertas.
Eu adoro cachorros. E gatos também. Os gatos têm o meu respeito porque são seres digníssimos. Os egípcios tinham razão, gatos são, com toda certeza do mundo, superiores a nós. E se engana quem diz que são bichos egoístas. Muito pelo contrário, são eles a própria reencarnação do altruísmo: quando os gatos sentem que estão para morrer, eles vão pra longe do dono. Geralmente o pensamento pára por aí. Mas nada me tira da cabeça o motivo: eles vão pra longe do dono porque não querem causar sofrimento alheio. Morrem sozinhos, agonizando depois de atropelamentos e partos mal sucedidos.
Cachorros não. Quando eles estão morrendo, chegam mais pra perto, aninham-se no colo, pedem carinho que nunca gostaram antes. Até o mais frio dos poodles neurastênicos, o mais violento dos pitt bulls, torna-se um carente profissional nessas horas mais difíceis. Cachorros são seres egoístas. Lindamente egoístas. Precisam do amor concreto. Não saberiam fazer poesia se pudessem.
Pois estava dizendo que não posso ver cachorro na rua. Não posso. E não posso ver gato também. Mas gato corre, se esconde no bueiro, alimenta seus filhotes. Cachorro é resignado. Fica deitado com folhas grudadas nos pêlos, aceitando a condição e não saindo do lugar em que foi deixado, que é pro dono poder achar se resolver tê-lo de volta. Cachorros sabem alimentar o doce das ilusões.
Tenho alma de cadela abandonada. Pego todos que vejo pela frente e, se não puder pegar, espalho fotos, grito pro mundo, abro as cortinas da retina das outras pessoas com a mão leve da palavra. Tento salvar os cachorros da calçada, da ração cheia de formigas, da comida rejeitada, da água quente no final da tarde. Tento salvá-los do mundo, da realidade crua, das pálpebras fechadas. E faço tudo isso por um único motivo, porque os salvando eu me salvo também. Porque não tenho só alma, tenho coração de cadela abandonada.

3 comentários

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