Sendo Clarice

Perguntas e respostas para um caderno escolar

- Qual o sentimento mais rápido?
- O sentimento mais rápido, que chega a ser apenas um fulgor, é o instante em que um homem e uma mulher sentem um no outro a promessa de um grande amor.
(A descoberta do mundo)


Poema sobre a entrega

(foto de Nan Goldin)


De tudo o que me deste
Beijo,
Cama
& cansaço
O que mais está em mim
É seu coração
Que
Sem perceber
Bate no mesmo compasso que o meu.

[o primeiro escrito de 2010 e tão leve como o suspiro que eu ainda não acabei de dar - tão grande amor]

Aritmética


Toda vez que eu termino de ler um livro, tenho um ritual: vou folheando página por página e encontrando marquinhas feitas à lápis que significam nada mais nada menos do que partes que eu achei interessantes. Só depois de transcrever todos esses trechos para um lugar onde eu guardo coisas do mesmo gênero desde que eu tenho uns 12 anos é que vou até a estante, escolho uma prateleira e coloco o livro recém lido no seu lugar. A questão é que não fiz isso com Aritmética, livro da Fernanda Young, escritora que apesar de meio mundo falar mal, eu adoro e nunca me irritou - trocadilho seja feito - em nenhum dos livros que eu li até hoje. Pois bem, hoje de manhã resolvi pegar o Aritmética, livro que enquanto eu estava lendo me fez surtar e até pensar em pesquisar algo nele para o TCC, e transcrever os tais trechos marcados. Li faz uns 2 meses, e eu gostei tanto de reler essas partes que me deu vontade de colocar aqui:

E a língua portuguesa não agüenta mais a chateação dos meus versos repetidos, repetidos por ela, que tão docemente recebeu minha língua em sua boca, dando-me um gosto que um milhão de palavras não poderiam traduzir. Porque não há verbo, ou sinal, ou lirismo, que consiga expressar o estranho que foi, o desconforto que foi, saber: esse beijo é o meu beijo. [p. 11]

A vida humana é basicamente isso, não é? Ferir e perdoar. [p. 301]

Tem vontade de sacudir aquele corpo e dizer “ei, devolve. Devolve o amor que tinha aqui. Que preenchia essas lacunas no meu peito, deixando tudo menos frouxo em mim. Devolve a liga, o ponto que faz do bolo um bolo, o nó da lã do tricô. Me salva."
[p. 271]

As mulheres são tristes quando contam as suas coisas. [p. 249]

Constrage-me existir nesse personagem Chico Buarque, dolorida, bonita sendo assim, meio tonta, meio insistente, até meio chata. Nunca precisei aborrecer ninguém antes, então atuo por instinto, cansando-me facilmente. E que fique claro que não é por estar você dessa forma, tão esquivo, que o desejo tanto. Desejo-o porque desejo. Estúpida, latina. Bethânia. Ainda creio que você, quando eu menos esperar, possa me chegar com um verso em atitude. [p. 75]

Algo como o valor de se viver grandes amores, apesar de, em se estar vivendo, ficarmos condenados, também, a grandes desilusões. Aritmética, Fernanda Young
[p. 19]


E tem muitas outras... vale a pena ler o livro todo.

Da carne das palavras


Assim que seus olhos se deitaram sobre os meus as palavras ganharam um sentido diferente.
Não mais que de repente, eu soube de todas as nossas vidas, nossas fugas, nossos esbarrões, assim que nos perdemos pela primeira vez em lábios e línguas com um fundo musical que eu não lembro agora, mas estou quase certa de que se pudéssemos ser diretores do nosso próprio roteiro, mudaríamos sem dizer uma palavra. Apenas um sorriso de canto de boca. Como que para atestar que sim: a música que você escolheria seria – e não tenho dúvida – a mesma música que eu escolheria.
Eu soube que essas palavras que sempre saíram tanto da minha boca, palavras de poetas que eu sempre li, de escritores que as vomitam em mesas de bar, em prostíbulos cheios de mulheres que nada se parecem com a pessoa amada, em páginas amareladas de livros esquecidos em tantas estantes de casas onde essas palavras não fazem sentido algum, eu soube que todas elas mudariam de sentido. Signo, significado, significante – o velho professor repete pausadamente em minha orelha. Quero mais é que todos desçam pelo ralo junto com qualquer limitação. O sentido é outro. É sentido-sentimento. Eu sabia tanto das palavras, tinha decorado sonetos de Vinicius, trechos dos contos da Clarice, finais impactantes de romances clichês. Todos pelo ralo.
Me resta só o cru. O cru de todas essas palavras. O cru do seu nome. E é tudo tão doce. Tão-tão-tão doce. A dor de não acordar com você é doce pelo simples fato de te saber e te sentir e te respirar no meu corpo mesmo quando distante.
Me resta o cru desse verbo que escrevo na sua pele com a minha saliva. Esse verbo que mastigamos juntos enquanto te recebo dentro de mim. Esse verbo que me faz ser sua e te faz ser meu com as letrinhas na ponta dos dedos e da língua, nadando em salivas para chegar lentamente ao centro da gente. Cor-ação.
Simples e tão concreto que ainda não inventaram palavras que conseguissem dizer. E nem é preciso. Digo a você, meu amor. Só a você. E te sei em mim pelo que você consegue ler quando o que eu escrevo se resume apenas em um suspiro perdido nos lençóis de cama.
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